segunda-feira, 24 de abril de 2017

Democracia ou partidocracia?

O meu vizinho – 5


A propósito das recentes eleições presidenciais francesas e dos seus surpreendentes resultados, o meu vizinho debitou-me o seguinte:

“Sabe, vizinho: Dizem que as pessoas se fartaram da democracia representativa, que já não acreditam nos seus valores e daí os fenómenos “populistas” que surgem por aí… Acho que não perceberam nada. A democracia tem sido, até ao presente, não o poder do povo mas o poder dos partidos. Devia antes chamar-se partidocracia em vez de democracia. É um estratagema habilidoso para alguém chegar ao poder. Consiste em cair nas graças dos superiores dum dado clã, que supostamente representa o povo ou parte dele.  Os candidatos começam por vender autocolantes, com entusiasmo e dedicação,  e logo passam às nobres tarefas de colar cartazes ou de fazer segurança. Quem grita mais alto, quem manifesta mais fervor, quem recolhe mais fundos, tem vantagem.  Se tudo correr bem passa então a chefiar um setor, depois um outro maior e por aí a fora. Ganham curriculum e a “confiança do aparelho”. Quem for persistente e suficientemente forte para engolir sapos mas também para se tornar sapo, está a um passo de saltar para o poder. É assim que se chega a presidente ou a primeiro-ministro, sem nunca arriscar um chavo que seja seu, sem nunca dirigir uma empresa que tenha criado, sem nunca tarimbar num emprego. Salvo, temporariamente, claro, se for necessário para “enriquecer” o curriculum próprio…
As pessoas já não acreditam neste sistema e, de facto, querem democracia, mas não têm forma de a escolher, nem sabem como fazer. Só sabem que não querem o que têm. É difícil de dizer que são a favor de alguma coisa. O mais certo é serem contra tudo.

Mas isto há de passar -  desfechou o meu vizinho - O pessoal, mais tarde ou mais cedo, sempre aprenderá alguma coisa.”

E desta forma se despediu.


Daniel D. Dias

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